Um mal humano que extrapola fronteiras

Não é o estar no Canadá ou num condomínio no Brasil ou em qualquer outro paraíso by Google Maps que nos torna livres – de nós mesmos. O esforço migratório na busca incessante de algo sempre além, traz a mente uma frase de Baudelaire: “parece que sempre serei feliz onde não estou”. Mas, isso cansa. Isso engana. Isso nos barbariza.

A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte – não é mesmo? E não é um país de primeiro mundo a garantia disto, tampouco aquele outro país o culpado pela privação deste desejo. As vezes, o ser escravo do supérfluo no Brasil – dependente de imagens, carros, manobristas, roupas, restaurantes e crediários, não é diferente dos suicidas vazios de tudo no Canadá, por exemplo.

O problema é mais embaixo.

“A sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados”, disse Byung-Chul Han no seu livro “Sociedade do Cansaço”. Na verdade, tudo se transformou numa grande arena olímpica, onde o cair de bunda no tablado, é sinal do fracasso total. Onde o dizer não, virou fracasso total. Onde a positividade de tudo e de todos virou um mantra infernal.

Essa motivação-goela-abaixo, com seus hinos “seja empreendedor”, “seja multitask”, “5 passos para felicidade”, nos embriaga. No final do dia, do meses, dos anos, nos tornamos mais e mais obesos de tudo – bem vindo a setembro. Obesos do fitness, obesos dos consumo-dos-mais-novos, obesos dos shoppings, obesos das estéticas, obesos das reuniões, obesos apressados pelo efêmero.

Friedrich Nietzsche, em 1882, já bufava: “as pessoas se envergonham do descanso; a reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão, enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa – vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo’” (Gaia Ciência). A vida snapchat, a vida linkedin, a vida instagram.

Yes, We Can.

Please, log in – sua vida.

Status: escravizando-me.

Check-in: (   ) Brasil (   ) Canadá (   ) Austrália (   ) Mônaco (   ) Síria

Zygmunt Bauman fala que vivemos numa sociedade líquida, de relacionamentos líquidos, de bases líquidas – de incertezas constantes. Ou pior, onde não ter é não ser. Onde o adequado é para o consumo imediato. Coisificamos tudo, para prazeres insaciáveis (na fadiga pós-likes). Nos tornamos um rebanho guiado por coisas a fazer, pelo dólar real a guardar, pelo on-line – off-life.

Meu amigo, minha amiga… do Canadá ou do Brasil ou sei lá onde, preste atenção: não despreze um olhar demorado, não ignore o silêncio, não entupa os vazios, não deixe de mastigar, não menospreze o toque. Viva. Quebre, desmonte, dê. Espere amadurecer. Amadureça. Nem tudo vem pronto em caixinhas Tetra-Pak – a vida é além-muros / out-box. Ligue para alguém do Brasil, ligue para alguém do Canadá. Falte no trabalho e vá ao cinema numa quarta-feira a tarde.

E três palavras muito importantes pra você memorizar: você vai morrer.

Procure o Sagrado – não o faça no dia do para-isso, mas num dia do não-para.

Termino com Fight Club:

“You’re not your job, You’re not how much money you have in the bank, You’re not the car you drive, You’re not the contents of your wallet, You’re not the clothes you wear”

(Você não é seu emprego, Você não é o quanto você tem no banco, Você não é o carro que você dirige, Você não é o quanto você tem na carteira, Você não é as roupas que você veste)

Ame.

2 thoughts on “Um mal humano que extrapola fronteiras”

  1. Achei um excelente texto, me fez repensar muitas e muitas coisas.
    É uma pena que não leio o blog sempre, por que me esqueço.
    Mas, li esse post por que recebi o link por email e gostei muito mesmo.
    Estão de parabéns!!!

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