Um coração divido entre Brasil e Canadá

A bandeira é verde, amarela, azul e branca e…. vermelha. O hino acho que prefiro o brazuca mesmo – mais melódico, mais histórico, mais música. Música brasileira é molejo, é swing. Só que no Canadá, são tantas as músicas, são diversos países, são inúmeros hinos, tons e timbres e melodias – que o coração já começa a bater descompassado.

 

Ser brasileiro, morar num bairro grego de Toronto, tendo Kristos como vizinho, comendo um patty jamaicano, bebendo uma cerveja irlandesa, trocando whatsapp com o chefe escocês sobre o trampo no bairro italiano e a treta com o síndico filipino, enquanto ouve suas filhas misturando português com inglês pra contar a historinha da amiguinha da Síria que chegou dias desses na escola, é até que divertido. Mas, podia ser diferente. Sempre.

 

Sabe aquele deixar as crianças na casa da vó brincando com as primas (a casa com cheiro de bolo, com a panela de pressão cozinhando o feijão). Correndo, gritando, jogando a bola na casa do vizinho – perto do Bar do Tonho, aquele pra tomar uma cervejinha com os amigos comendo uma porçãozinha de mandioca frita e pastelzinho na calçada, falando mal do governo A, B ou C e das contas pra pagar. Então….

 

Daí as ruas esburacadas, dos motoboys e suas CGs alucinadas, deram lugar aos milhares de parques públicos. O atraso de sempre, deu lugar à hora certa. O rito do abraço com três beijinhos, virou o aperto robótico de mão. Falar da vida do Fulano, Sicrano e Beltrano – novela, sabe?! – é de uma intimidade que nem em dois séculos se chegará entre os mais íntimos dos canadenses. A pizza de estrogonofe de frango com borda de cheddar, virou a pizzinha de pepperoni do forno a gás. Futebol…. soccer.

 

Segurança, você vai entender o que é isso. Valor do dinheiro? É ir no mercado e sair com o carrinho cheio. Ponto. E seu chefe não vai ganhar 10 vezes mais que você, pode ter certeza disso. Aliás, ele pode ser seu vizinho, pegar o busão com você, passear com a família nos mesmos destinos que você. E nos finais de semana, ele faz bico no McDonalds. Sério! E ele não é mais ou menos por isso.

 

Mas, sim, terá meu voto aquele que trouxer as praias brasileiras às costas canadenses, puxar o solzinho um pouco pra mais perto (mas, nem tanto), colocar jabuticabeiras nos parques da cidade, mostrar ao mundo o tempero único da comida brasileira, ensinar “criatividade do brasileiro comum” nas escolas públicas e colocar uma barraquinha de pastel do lado da prefeitura. Tom Jobim sempre teve razão: “Morar fora é bom, mas é ruim. Mas, morar no Brasil é ruim, mas é bom”! Segue a vida.

Artigo originalmente publicado no Jornal North News.