O que pensam aqueles que nunca mais querem voltar para o Canadá?

Não é todo mundo que tem a bandeira do Canadá tatuada no braço. Pra alguns o sonho canadense já beirou um pesadelo. São pessoas normais, que também gastaram muito tempo e dinheiro nesse projeto chamado Canadá. Vieram ou como estudantes ou como residentes permanentes, lutaram por um, dois anos ou mais e viram que essa “praia” não é pra eles. Voltaram para o Brasil e estão felizes novamente. Daí você pergunta: mas, por quê? como?

Antes de mais nada: muita calma nessa hora! Escondam as pedras.

Canadá não é o melhor país do mundo e o Brasil não é o pior país do mundo, e cada um faz o que quer das suas vidas – ainda mais quando o assunto é imigrar. E nada melhor do que vir, ver, tirar aquele mantra da cabeça “Canadá-Canadá-Canadá” e descobrir por si próprio: não é pra mim. Fim. Mas, o que aconteceu com essas pessoas para tomarem essa decisão (que não necessariamente se aplica a todos)?

[os nomes são fictícios, as histórias são reais]

Salvador-da-Bahia

“Esse inverno é desumano, depressivo e não tem fim”

Paulo e Andréia são de Salvador, Bahia. Ele, engenheiro ambiental. Ela, engenheira de alimentos. Ambos vieram para estudar e trabalhar por um ano e meio. Nada os impedia de estender a estadia. “Queríamos sondar a área. Se pintasse um amor, a gente ficava”. Mas, não rolou a química. Um dos invernos que eles pegaram foi da estação 2013/2014. Pleno dezembro sem energia elétrica por vários dias. Um caos. Já era o segundo inverno deles. “Cara, aquelas tardes escuras, aquela neve que não acabava nunca, aquele monte de roupa, aquele frio inexplicável, aquele vazio. Aquilo tudo foi nos deprimindo. E nossos amigos postando fotos de Salvador. Não aguentamos”. Ambos dizem que não trocam o calor baiano por mais nada nesse mundo. De fato, o inverno canadense é punk.

“Minha família e amigos são tudo pra mim. Não vivo sem eles”

Nem sempre Skype, Facebook ou Air Canada são suficientes para sufocar aquela saudade insana. Maria Paula tem 28 anos, mora em São Paulo. Uma jovem que via no Canadá a chance de não só aprimorar o inglês, mas também conhecer novas culturas, curtir o “primeiro mundo” e se virar sozinha. “Eu achava que ia tirar de letra. Achava!”, ela disse rindo. Foi um infindável ano de choro, momentos perdidos e frustração. “Minha irmã teve um filho, meu pai teve um ataque cardíaco, terminei um namoro de anos, meu ex-chefe me fez uma oferta irrecusável de emprego e minha homestay era louca. Acho que os astros não estavam para Canadá na minha vida”. Depois de um ano: São Paulo, amigos e família. Pergunto: “Mas, e agora que tudo está normal, você voltaria?”. Ela: “Não. Esse calor humano é vital pra mim”. Ah…. esse calor humano.

“O quê? No Brasil eu gerenciava operações de milhões de reais. No Canadá… limpava cocô de pomba”

Luiz Gustavo é casado e tem dois filhos pequenos: o Gustavinho, 7 anos e o Henrique de 5. Mora no Rio de Janeiro e é estatístico. Veio para o Canadá com a família em 2012, como residente permanente. Ficou por aqui 3 anos e só. “Não aguentava mais. Era algo meio psicológico. Não consegui me encaixar na minha área profissional. Meu inglês não era dos melhores. Daí você entra num ciclo vicioso: trabalha muito porque não tem um bom inglês, mas não tem um bom inglês porque trabalha muito. O que sobra? Ralar 12 horas/dia. Cansei”. Sua esposa era fonoaudióloga no Brasil – teria um caminho muito longo para validar sua profissão. Seus filhos eram muito pequenos na época. Para o Luiz, colocar o milk na mesa estava custando o seu cérebro. “Sentamos todos um dia na mesa, conversamos sério, avaliamos prós e contras, choramos e decidimos: vamos voltar. Foi a melhor decisão que tomei na minha vida”. Planilhas de Excel no Rio ao invés de cocôs de pomba (que teve que limpar) em Toronto.

“Recebi um diagnóstico de câncer, preferi voltar”

Você está lá na sua vidinha pacata, com floquinhos de neve caindo do céu, atravessando a rua sem olhar para os lados, pegando ônibus com 10 segundos de atraso, fazendo piqueniques nas praças de Toronto, quando num belo dia uma notícia inesperada te dá um soco no estômago. “Quando o médico me disse o que eu tinha, eu quis não ter escutado direito. Pedi para ele repetir, talvez fosse um mal entendido da língua, mas não…. chorei, chorei muito”. Mariana foi diagnosticada com câncer de mama. Um choque. Poderia ser tratada em Toronto? Sim. “Mas, não tinha a cobertura do sistema público de saúde. Além disso, não suportaria essa barra sozinha. Voltei”, ela disse. Hoje, já recuperada, diz que tudo o que aconteceu acabou a fazendo reavaliar o valor de muitas coisas – entre elas: o estar junto de quem se ama.

couple

“Entre o Canadá e o amor da minha vida, preferi o amor da minha vida”

Falando em amor, estar junto, musiquinha romântica… Eduardo conheceu Renata. Namorou, noivou e…. veio pro Canadá. Ela não. “Estava super bem empregada. Nunca cogitou sair do Brasil. Filha única e aquela história toda”. O casal mantinha o relacionamento via Skype, vez ou outra em Toronto, vez ou outra em Belo Horizonte. A brincadeira durou quase dois anos. Até que um dia veio a pergunta cruel: ou ele (Canadá) ou eu. “Veja bem… se eu disser que eu era a pessoa mais feliz do mundo no Canadá, eu estaria mentindo. É bom, é legal, é seguro, não há comparações. Mas, felicidade mesmo eu tenho estando com ela, mesmo fora do Canadá”, me disse Eduardo. Eles se casaram há seis meses, e não darão entrada no visto canadense. “Aqui em Minas tá bom, uai”.

Como diria Mandella: “Deixe suas escolhas refletirem suas esperanças, não os seus medos”.

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