Meu muito obrigado ao SUS do Canadá

Minha esposa fez uma cirurgia cardíaca dias atrás. Algo meio que inesperado e inadiável. Vínhamos acompanhando seu caso no Brasil, mas o quadro se agravou aqui. Sua cirurgia foi realizada no Peter Munk Cardiac Centre, no Toronto General Hospital. Tudo correu bem, aliás muito bem. Por isso resolvi escrever esse post.

Antes de mais nada, tenho que deixar claro algumas coisas: não tenho a intenção de fazer comparações entre sistemas B ou C de Saúde (prometo me esforçar); trata-se de uma opinião pessoal, você pode pensar diferente; e “nenhum dever é mais importante do que a gratidão”, já dizia Cícero. Logo, esse post é um dever pra mim.

O problema: miocardiopatia hipertrófica congestiva.

Tradução: a parede do coração cresce em demasia causando excessiva sobrecarga cardíaca, além de dificultar a circulação sanguínea.

Prognóstico no Brasil: “Não podemos fazer nada. Não há cura, só remédios”.

Um mês após uma delicada cirurgia, agora bem mais tranquilos, exames cardiológicos normais, queremos dizer alguns “muito obrigados” ao Sistema de Saúde Canadense, em especial ao Toronto General Hospital.

Muito obrigado pelo tratamento igualitário que recebemos

No Peter Munk são realizadas em torno de dez cirurgias cardíacas por dia. Enquanto aguardávamos numa confortável sala de espera, cerca de nove famílias, tão apreensivas quanto nós, estavam ali. Pude conhecer algumas, compartilhar a angústia da espera. Descobri que, naquele dia, seriam operados: um CEO de uma empresa canadense, um zelador, um faxineiro, uma empresária e minha esposa fonoaudióloga. Todos de países diferentes. Todos recebendo o mesmo tratamento. Diga-se: gratuito. Poderia ser o Primeiro Ministro ou poderia ser um atendente do Tim Hortons. Sem essa de atendimento diferenciado em hospital diferenciado com médicos diferenciados! E olha que nem somos cidadãos canadenses. Ok, já vejo alguém lá no fundo levantando a cartolina escrita: “Todos tem direitos iguais à saúde”. Concordo, mas na prática, você sabe, nem sempre é assim.

Por isso, muito obrigado.

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Muito obrigado pela excessiva cautela no cuidado

Confesso que fiquei surpreendido com tamanha precaução e atenção a detalhes tão minuciosos. Nada, literalmente nada, passa despercebido. Enfermeiras exclusivas anotando cada variação de números e de reações, não iam sequer ao banheiro sem que alguém as substituíssem. As dezenas de pessoas envolvidas no dia da cirurgia davam detalhes de suas funções e obrigações para nós, como se… nem sei dizer direito. Mesmo entre eles, todos eram precisos, e se esforçavam pra isso, em detalhar o caso entre si. Beirava ao exagero da atenção.

Soube, posteriormente, que na sala de cirurgia havia uma enfermeira que passava gaze por gaze para o médico usar no procedimento cirúrgico. Essa dizia para uma outra quantas gazes ia passando. Uma terceira ia recolhendo uma a uma e dispondo lado a lado, numa bandeja, cada uma delas — com sangue e tudo. No final todos os números tem que bater entre as três enfermeiras, sem contar os outros instrumentos cirúrgicos, e só após essa contagem é iniciado fechamento do peito.

Por essa e outras, muito obrigado.

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Muito obrigado pela sede de conhecimento e busca de novas respostas

“There are always answers” (Sempre existem respostas) é o que diz uma placa enorme do lado de fora do Toronto General Hospital. Meu amigo, minha amiga: pesquisa é tudo! Do caso específico da minha esposa, que não é daqueles raros iguais do seriado “House”, eles pediram permissão para realizar umas quatro pesquisas diferentes — sempre buscando melhorar os procedimentos e encontrar novas e eficientes respostas. Todos os estudos vinculados à Universidade de Toronto. E quer saber mais? Essa eu quase chorei ao ler. Do lado de fora do Princess Margaret Hospital — o hospital do câncer daqui — está escrito: “Acredite. Nós vamos vencer o câncer nessa geração”!

Não vou entrar em detalhes quanto a soma de dólares destinada à Saúde e à Educação (talvez venha daquele cofrinho chamado “impostos”, sem contar as doações). Simplesmente vimos com os nossos próprios olhos o conhecimento fazendo diferença em nossas vidas.

Também por isso, muito obrigado.

Muito obrigado pelo respeito à nossa compreensão das coisas

Pense bem: o que nos difere de um boneco de neve? Algo chamado cérebro. Todos, com um mínimo de esforço, podemos ensinar alguma coisa e aprender alguma coisa. O fato de você ser portador de uma doença “X” potencializa um pouco mais seu interesse em conhecer a mesma. Basta um cagagésimo de didática do médico para mostrar o que você tem e o que você terá. Gente, até Deus fala com os homens! Médicos também. Enfim, fomos informados de todos (repito: todos) os detalhes da cardiopatia e da cirurgia — inclusive com desenhos feitos a mão, ali na hora, sem pressa nenhuma. Não porque somos “burros”, mas porque há um principio chamado “respeito” que está em jogo. Havia uma preocupação constante em demonstrar cada movimento que seria realizado e o que isso resultaria de bom ou de ruim para todo o sistema corpóreo (e isso com números em casas decimais)!

Então, por cada explicação detalhada, muito obrigado.

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Muito obrigado por cada momento junto à minha esposa: antes, durante e depois

Daí você chega num país diferente do seu, com uma outra língua (imagine explicar ou entender uma doença qualquer em inglês), com outro sistema de Saúde, com outros procedimentos, com outra cultura… mas, de repente, tudo vai se encaixando. Você começa a ver “n” pontas de um sistema complexo se ligar a sua frente. Seu médico de família sabe tudo que o seu cardiologista sabe, que sabe tudo que o seu cirurgião sabe, que sabe tudo que as suas enfermeiras sabem, que sabem tudo o que os terapeutas sabem, que conectam tudo às farmácias e aos exames laboratoriais e tudo.

Um mega Facebook do bem.

Tudo planilhado, tudo documentado, tudo computadorizado, tudo numa rede interligada, tudo fluindo para uma comunicação (que deve ser) perfeita, e saudável. Desde o começo até o fim, com quase nada de ruído.

Por cada momento desse, meu muito obrigado.

“We will conquer cancer in our lifetime” Princess Margaret Cancer Centre

Pra finalizar, lembro de um dia estar no hall do Peter Munk e ver várias placas com nomes de pessoas que contribuíram para o Toronto General Hospital. Muitas, mas muitas pessoas! Resolvi então, com prazer e gratidão, também contribuir financeiramente com o meu mínimo, para um sistema que prioriza a saúde do ser humano, e que mudou as nossas vidas.

Muito obrigado por nos dar esse prazer em contribuir para algo que acreditamos.

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E além de tudo isso, nosso eterno obrigado a equipe dos Drs. Harry Rakowski e Anthony Ralph-Edwards. Recebam esse post como nossa mais profunda gratidão.

Família Rodrigues, Brazil.

8 thoughts on “Meu muito obrigado ao SUS do Canadá”

  1. Oi tudo bem?
    Possuo um familiar que tem o mesmo problema e como vc disse aqui no Brasil só falam que não tem nada a fazer, a não ser que ele faça o transplante, a onde existe grandes chances de rejeição.
    Quando surge uma segunda opção imagina o quanto fico curiosa em saber detalhes.
    Teria como você conversar comigo via face ou e-mail?
    Aguardo retorno

  2. Meu pai tb tem esse problema e quase morreu (teve duas pré mortes súbitas). Há 6 anos, implantou um desfibrilador (que tem que trocar a cada 5 anos), pelo SUS, em São José do Rio Preto. Fiquei curiosa…essa cirurgia feita no Canadá é o mesmo procedimento?

    1. Não, Marcelle. Cada caso é um caso. Mas, no nosso especificamente foi realizada uma miectomia da parte em excesso do coração. Foi uma cirurgia corretiva e não paliativa.

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