Como aprender com uma senhora canadense que Toronto vale mais do que visões individualistas

É vergonhoso o que vou dizer. Mas, aprendi uma lição, e foi tão bem dada que acredito que nunca mais vou esquecer o tapa na cara que levei. “Tapa na cara” é modo de dizer. Na verdade, foi um soco no estômago. Fui pego num “crime”. Pronto, falei. Vocês vão rir da minha cara, mas aprendi umas coisas importantes com o meu mico: crimes não compensam e uma cidade é de todos e não de alguns.

Eu e meu brother estávamos trabalhando em Downtown, em Toronto. A semana inteira no mesmo lugar. Digo isto porque geralmente era um dia em cada lugar. Enfim. Chega de manhã, vai embora a tarde. Só que… todo santo dia a porcaria do pneu do nosso carro estava murcho. Sei lá se estava furado, se eram ações meteorológicas, se era o Zodíaco… todo dia murcho. Sabe por quê? Faltava a p***** de um biquinho! Aquele bico do pneu, saca? Sumiu!

Solução: arrumar um biquinho de pneu. Simples.

Fade out.

Quem já conhece o centrão de Toronto sabe que o que não falta por ali é bicicleta encostada. Presa em poste, árvore, hidrante, cerca, portão. Bicicletas que estão ali antes mesmo que o Canadá fosse descoberto. São verdadeiros fósseis. Bikes de todos os modelos. Algumas somente o esqueleto. O cara compra a magrela no verão, daí chega o interminável inverno… bike never more.

Sugestão do lado negro da força: por que não pegar um biquinho de uma dessas bicicletas solitárias e abandonadas e esqueléticas daquela calçada lúgubre e baldia?

Por que não?

Fade in.

De mãos dadas com o capiroto-coiso-ruim, lá fui eu. “É só um biquinho mesmo, ninguém vai perceber, nem vai dar falta”, justificava meu lado serial-killer-de-biquinhos-de-bicicleta. Vi a mais feia de todas. Datei na minha mente que ela estava ali há pelo menos 5 séculos. Abaixei e dei início ao crime. “Um biquinho, só um biquinho”, martelava meu coração preto e peludo cheio de razões obtusas. Pronto. Biquinho na mão. Vambora. Só que…

Flagrante.

Aqui dá-se início à aula magna de ética e senso comunitário ministrado por uma senhora canadense, que desconheço o nome, que passava por aquela calçada na hora do crime. Quando levantei, orgulhoso do meu delito, dei de cara com esta senhora. Uns 70 anos. A bicicleta não era dela, cabe dizer. Segue o diálogo:

Ela: “Essa bicicleta é sua?”

Eu: “Ga, gue… é… hum… sabe… né não, dona…”

Ela: “Eu sei. Eu vi. Essa bicicleta não é sua, esse biquinho não é seu, essa cidade chama-se Toronto, aqui não admitimos isto. A cidade é de todos. Devolva já este biquinho no seu lugar”!

Eu (ou o que restou de mim): “Sorry”, e devolvi o biquinho naquele resto de bicicleta que, de fato, não era minha.

Ela: “Obrigada, Toronto agradece”.

 

O que aprendi com isto e nunca mais vou esquecer?

  • Nunca roube biquinhos de pneu.
  • Aliás, nunca roube nada, nem uvas no mercado.
  • Quem é fiel no pouco, é fiel no muito.
  • No Canadá, alguém vai te pegar, pode ter certeza!
  • As cidades são de todos e não de alguns – trocando em miúdos: público é público, privado é privado.
  • Esqueça esse papo de que “achado não é roubado”! Aquilo é de alguém e se você tomou para você… – Ex.: perto de casa tinha um patinete na calçada que ficou ali por mais ou menos 3 meses. Ninguém, nunca, tocou nele.
  • Conscientize as pessoas dos seus erros – ou crimes, a começar dos nossos filhos.
  • Diga sempre a verdade.
  • Não ouça o lado negro da força.
  • Vote consciente.

Nunca é tarde para aprender mais alguma coisa nesta vida – thanks, gentle lady!

Eu agradeço, Toronto agradece, e o Brasil agradece também.

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